quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Caminho do mar

Sempre que me vejo dentro
vou pondo fora o que sinto.

Lamento as flores murchas,
carrego comigo as que agüento.

Caminho do mar calmo
vou jogando as pétalas e tormentos,

preenchendo aquele lugar
com o vazio que restar.

Quando tudo estiver cheio
e chegar a hora de expirar

o mar, o caminho e as flores
murchos estarão
pela primeira vez sem dúvida
cheios de todo o vazio que puderem alcançar.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Exposição

Era a claridade que me expunha,
me vergava a pele estranha.
É a minha senha a tua unha
que se crava e me arranha.

É a pele estranha que é escrava
dessa luz que compromete,
que aponta e que estraga
o lugar que a protege.

É a palavra que profere,
que, incontida em
seu semblante, se repete;

e ilumina o que prefere:
que desescondida
a minha alma se revele.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

A traço vermelho

O poeta é um abstrator de quinta-essências líricas.

É um sujeito que sabe desentranhar a poesia que há escondida nas coisas,

nas palavras,

nos gritos,

nos sonhos.


A poesia que há em tudo,

porque a poesia é o éter em que tudo mergulha,

e que tudo penetra.


Ela jaz sepultada entre minérios,

notícias de jornal,

receitas de doces,

página e meia de excelente prosa...



O poeta não tira de si a poesia,

dos seus sentimentos,

dos seus sonhos,

das suas experiências.


Ele é advertido da presença do poema.

Encontra a imagem insólita,

o encontro encantatório dos vocábulos.

Sabe ver

(como se destacado a traço vermelho)

entre a lã grosseira,

aquilo que fia mais fino.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

17 de fevereiro

Vê no alto do morro

aquele tronco seco?

Ele corta o vento

que assobia toda memória do lugar.


É apenas ar,

mas é que o movimento

permite cantar o tempo

e transportar histórias.


Então vê

no alto do morro

aquele tronco seco...

vê as pedras, os medos

que cortam o vento

e sussurram sílabas e sibilas,

além das memórias de morte e de vida.

Vê o vento no rio

cuspir empolgado a saliva.


Ele é apenas ar,

mas é que o movimento

permite contar o tempo.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Ruído

Só posso ouvir-te

se te percebo sem querer (quando pára).

Seduzes meu ouvido

e somes lento.

Como fina linha

aguda perfura

meu tímpano desatento.

Como fina linha

e agulha costura

o límpido pensamento.

Instalado então és inofensivo,

tormento.

És o silêncio,

...

surdo,

a explosão suave da bomba.

És a canção dos mortos.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Imemorial

I

É de manhã indo para o trabalho

que me sinto solitário.

É tendo um emprego que percebo

a opacidade irremediável da existência.


Já não sei bem se bebo

café ou conhaque?

Estou dormindo ou acordado?


Não percebo, percebe? se estou embriagado.


O meu problema é ter sido reduzido ao medo da chuva,

de molhar os sapatos,

à viver aprisionado.


A vida será isso?


Pela janela do carro o mundo se afigura a um quadro expressionista,

no qual as formas remetem

a tempos imemoriais

- é dessas formas que esqueço mais!


Sinto o peito de pedra irmanado ao chão.

Já chorou lágrimas de álcool?


Percebe que as nuvens são pontos, pequenos?

Tão próximos!

Já sentiu que poderia tocá-las?

Que seus cabelos podem se confundir com esse mundo de nuvens esfumaçadas?


II

Meu olho de vidro vai pela fumaça,

vê senão entende, o mundo

dessente.


Pelos olhos invento o mundo,

explico tudo o que confundo.

A que, sem fundo, tenho direito.


Julgo o mundo pelos olhos,

um estranho pela porta,

o jardim pela janela.

Jogo com as formas que esqueço.


Vidro e fumaça deforma.

Enquanto lá fora...


Vejo o monumento,

um Imemorial,

uma homenagem ao esquecimento.


Não sei se mereço tanto

por meus de-s-feitos!

sábado, 17 de novembro de 2007

Chitilim

_ Só tem um caminho até lá?

_ Só! Pelas bordas da escada, nunca pelo meio, pelo meio o caminho é normal e leva para o lugar de sempre.

A escada tinha degraus leves e era fácil de subir. As laterais eram muretas da altura do chão. Chitilim explicava justamente isso: para chegar ao jardim secreto era preciso subir a escada por uma das muretas.

_ Antes do crepúsculo, ouviu? Por que depois o jardim desaparece e as amoras se transformam em formigas gigantes.

Mariana espantou-se, mas em seguida fez cara de coragem e seus olhos ficaram bem pequenos. Ela continuou olhando a escada, decidindo se ia mesmo subir ou não.

_ Antes do crepúsculo!

Chitilim apressou Mariana.

_ Qual é a cor de lá?

Ele riu da pergunta.

_ Não vou responder, se você pode ir até lá e ver você mesma!

Mariana ficou irritada. Precisava de outra pergunta. Uma que ele não pudesse evitar responder. Pensou...pensou...e...

_ O que são amoras?

_ Ora! Amora?... Amora é o feminino de amor. Se você me ama, eu sou Chitilim, o seu amor; se eu te amo, você é Mariana, minha amora.

Chitilim sabia que isso tudo era uma estratégia de Mariana, ela queria ganhar tempo, então retirou do bolso um caleidoscópio e entregou a ela.

_ Segura um instante?

Mariana arregalou os olhos.

_ Então, isso é um instante?

Segurou o caleidoscópio por um dos lados.

_ Nunca pensei que pudesse segurar um instante!

Chitilim arrumou os óculos que estavam meio caídos em seu nariz e fez cara de pensamento.

_ Mas pode! E enquanto conseguir o universo todo caberá em sua mente. O tempo, desde que tudo começou, até quando tudo acabar, caberá na sua cabeça. Enquanto segurar o instante você poderá estar em todos os lugares ao mesmo tempo e ter todas as respostas que procura sem entender nenhuma.

Chitilim queria que o caleidoscópio animasse Mariana.

_ Olhe dentro um instante!

Mariana olhou, e logo depois, impressionada, tirou o objeto dos olhos. Agora tudo o que olhava era como se fosse pelo caleidoscópio.

Ela olhou para o alto da escada e pôde ver a entrada do jardim. Era muito iluminado e possuía milhares de amoreiras.

Fazia muito tempo que Chitilim falava do jardim e de como tudo nele era mais colorido, e como as frutas eram mais doces, e como tudo lá era mais fácil de entender.

No entanto, Mariana evitou acompanhá-lo até as escadas o quanto pôde, mas agora estava lá e sabia o que devia dizer a ele.

_ Chitilim.

Ele estava muito divertido pelos olhos de caleidoscópio. Mas ela se controlou para não rir.

_ Oi?

_ Tem uma coisa que preciso dizer, já faz um tempo, mas estava sem coragem.

_ Fala!

Mariana abaixou a cabeça e algumas lágrimas caíram. Quando ergueu de novo a cabeça já não tinha mais seus olhos de caleidoscópio, Chitilim estava normal e alguns passos para trás. Ele já havia entendido.

O sol começava a se pôr e as cores ficaram todas muito vivas. Era o crepúsculo, o dia estava indo embora. O brilho do jardim ficou mais forte chegando a iluminar até o pé da escada.

_ Você precisa ir Chitilim. Eu não posso mais ver você.

O crepúsculo passou e o jardim desapareceu.

Chitilim nunca se afastou de Mariana e às vezes, quando ela solta os olhos no nada, pensativa, ele é capaz de jurar que ela está olhando para ele. Mas ele não tem certeza, nem coragem de tentar falar com ela.

Na dúvida Chitilim decidiu não envelhecer, e se tornou o próprio envelhecimento.